


Em terra de cego, quem tem um sonho é morto
Por Cristiani Elias
A menina sai para as ruas louca para sonhar. Sua vida é de sonhos e seus sonhos cheios de vida. Seus olhos são brilhantes e lacrimejantes, pois esta menina não pára de sonhar.
O castelo onde vive a menina não tem regras, não tem leis. Cada um escolhe seu papel e o desempenha ao seu bel prazer. Só se proíbem os sonhos, em cada esquina, em cada cruzamento, existe um mandamento: É proibido sonhar.
O castigo para os sonhadores é duro…A menina esconde seu segredo, finge também não sonhar. Mas seus olhos, que traiçoeiros, vivem a lhe delatar. Olhinhos que não têm jeito, não conseguem parar de brilhar. Coitadinha da menina, não consegue disfarçar. Quando posta em julgamento, a menina mente dizendo que o brilho se deve ao chorar. Só que o Rei, esperto que é, sabe, que até mesmo para chorar, antes se sonhou. Coitada da menina, são sonhos e não lágrimas que reluzem em seu olhar.
Como a menina é a única a sonhar, e não consegue a ninguém influenciar, desculpam a menina e a fazem prometer nunca mais sonhar. A menina cruza os dedos e promete que conseguirá, só que a menina sabe que é sua sina sonhar.
Certa tarde de verão, em pleno carnaval, a menina feliz da vida, pois uma máscara era a saída para ninguém os seus olhos reparar. Dançava alegremente, uma marchinha, toda contente. Ela já estava se tornando adolescente…Eis que muito de repente, um menino a toma como par!
O menino logo sentiu um tremor, um calafrio, e foi atingido por um intenso calor. A energia da menina fluía, pois quem sonha tem outra cor, outro sabor, outra alegria . O menino assustado, havia sido contagiado! De repente em todo condado ouvisse um grito apavorado. O menino se deu conta que estava de mãos dadas com a menina dos sonhos. Pavor total, muitas vezes um toque pode ser fatal; e desta vez foi. Pronto, já era, o menino se tornou também um sonhador. Todos choravam desesperados pois o menino também estava condenado.
Para sonhar é preciso coragem, e isto a menina tinha de sobra. No entanto, enquanto o poder de sonhar se passa de imediato, já a coragem…pode levar um tempo o contágio. Pânico total! A menina tentava explicar que a coragem ela tentaria passar. O menino desesperado, não tinha coragem para aprender como se aprende a ter coragem. E aí, como se viver cheio de sonhos e sem coragem? Ninguém sabia responder…É, o menino estava condenado.
O consenso geral foi matar então a menina. Acabaram também com a rima, pois rima rima com menina.
Estraçalharam toda a menina, acabaram com ela até o fim. Cada parte do seu corpo foi cuidadosamente despedaçado por todo o povo do reinado. Era bom terminar logo com aquilo, de uma vez, para que se evitasse totalmente um outro contágio. Não podia sobrar nem um pedacinho da menina dos sonhos. Curiosamente os olhos lacrimejantes da menina se negaram a serem destruídos. Tentaram de tudo, desde moedor de cana até triturador, sem sucesso. Os olhos ficaram vivos, lacrimejantes e ainda mais brilhantes. O que o povoado havia esquecido é que quem sonha não tem o mesmo tipo de olhos. É outro tipo de gente, gente de quem nunca se esquece.
Assim foi a maldição do reinado, conviver eternamente com aqueles olhos de menina que sonha.
Dizem deste reinado que aconteceu algo muito engraçado. Toda criança que nascia se encantava com aqueles olhos…os pais desesperados tentavam mantê-las afastadas. Não teve jeito, aqueles olhinhos atraiam os bebezinhos. Estes retribuíam a piscadela do olho da menina dos sonhos. Pronto, já estavam sonhando também, e cheios de coragem, pois eram muitos… Não tinha mais jeito, se alastrou. Era um tal de sonho com marshmellow!
Dizem que foi assim que começamos a sonhar.
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